Juntos, pro que der e vier
Foi o momento mais angustiante das nossas vidas de pais, certamente: ver filhote ali, deitadinho na maca, entrando, sozinho, no centro cirúrgico. Ai, gente, que aperto…Chorei, eu, que nem criança — depois que a porta fechou, claro. O Rô também se emocionou. Foi doído, mas foi um momento bonito, ao mesmo tempo. Depois do “xaropinho” anestésico, dado ainda no quarto, Gutão foi ficando molinho até chegar naquele ponto da “chapação”. Chegou assim na porta do centro cirúrgico: chapadaço, sorrindo pro mundo. Abraçado na Pig, deu um sorridente “até já” pra gente, nossos olhos já marejados, a maior força do mundo pra devolver o sorriso meigo dele. (Naquele instante, fiquei pensando no quanto somos abençoados e na angústia que devem sentir pais e mães ao verem seus filhos nessa mesma situação, só que não por uma escolha, não por um procedimento eletivo, mas por força de uma doença, de uma urgência, ai, ai…).
Chegamos ao hospital às 8h. Gutão estava em jejum há horas, desde a pizza com suco de abacaxi de ontem à noite. Não reclamou um só minuto, aliás, nem lembrou que precisava comer. Chegou sorrindo, correndo, querendo encontrar a dra.Renata, que já havia combinado com ele na consulta da sexta que ia “limpar os ouvidinhos e tirar a areia azul lá de dentro” (sim, tinha um grão de areia azul no ouvido esquerdo, bem lá dentro, a tal areia que faz a festa das crianças na escola!). Nós não mentimos: dissemos pra ele que estávamos num hospital e que íamos passar o dia lá. Só não falamos em cirurgia, operação, anestesia, sangue, essas coisas. Pra quê, né? Ele só iria ficar impressionado ou com medo dos procedimentos. Bom, o anestesista foi no quarto antes da cirurgia. Um figuraça, que gerou empatia com filhote de cara. Perguntou dos carrinhos, ascultou o peito dele e deixou ele ouvir o próprio coração, e combinou de dar o xaropinho em seguida e fazer fumacinha depois que ele já estivesse lá dentro. Engraçado foi que a enfermeira veio dar o sedativo e trouxe a seringa e um copinho junto. Eu perguntei o que era e ela disse que era groselha pra dar depois do anestésico. Eu falei que não precisava, que eu mesma oferecia o líquido na seringa pra ele. E foi assim, filhote abriu o bocão e nem reclamou. Bichinho, já tá acostumado de tanto remédio que tomou por causa dessas otites…
A cirurgia começou por volta das 9h40. Perto das 11h, a enfermeira ligou no quarto, avisando que tinha terminado, que transcorrera tudo bem e que ele estava dormindo tranquilo. Era hora de trocar de roupa e ir lá, ficar com ele até ele acordar, no pós-operatório do centro cirúrgico (achei muito bacana esse cuidado, dos filhos acordarem com as mães por perto). Quando cheguei Gutão ainda dormia, tranquilo. Tava tomando soro e fumacinha de adrenalina, pra ajudar na respiração. Achei que ia encontrá-lo inchado ou coisa que o valha, já que ele também tirou as adenóides, mas nada. Estava lá, deitadinho de lado, ressonando. Até que abriu os olhinhos. E viu um fio com aquele negócio que colocam no dedo pra acompanhar o nivel de oxigênio, esqueci o nome. Pronto. Ficou tentando colocar na boca, como se fosse chupeta. Aí, o anestesista achou por bem tirar o troço do dedo e guardar, já que ele estava bem. Pra que? Gutão cismou que era uma chupeta e que o médico tinha guardado no bolso. Ficou tão brabo que chegou a se levantar na cama, ficou em pé, foi pra cima do dr.Marcelo pedindo a “petita”, muito nervoso. E o médico rindo, dizendo que não tinha nada no bolso e pedindo pras enfermeiras correrem pra pegar a dita petita com o Rô! Durou uns cinco minutos o episódio. Eu não estressei, não. Achei até engraçado como, nessa volta da anestesia, qualquer coisa detona a “brabeza”. (O menininho da cama ao lado, que operou um olho, estava batendo as pernas, irado, por que queria jogar videogame!). Depois da petita na boca, deitei com filhote na maca e ele, então, recebeu alta para o quarto e nós fomos encontrar o Rô, ansioso que tava em ver o filhote de volta.
Gutão já chegou no quarto mais acordadinho, mas ainda molinho. Ficou deitado vendo desenho na TV, tomou um tantinho de suco e ganhou um helicóptero do papai. Gostou tanto que quis descer da cama. Aí, eu me apavorei. Chamei a enfermeira pra ajudar, mas ele foi mais rápido, e brabo que só, desceu da cama sozinho. Quando ela chegou, deu risada e disse que tudo bem, que eles só fazem o que podem fazer. Recomendou apenas ficar perto dele, caso as perninhas bambeassem. Isso não aconteceu. Gutão brincou um bocado, tomou mais suco, tomou picolé de uva (dois!) e, depois, pediu gelatina. Para minha surpresa (sim, eu tenho trauma de anestesia!), não vomitou nem sequer teve ânsia. Brincou um monte com a cama que sobe e desce, fuçou tudo embaixo dela, dançou Jack Johnson com o papai e fez a festa das enfermeiras. Nem o ouvido nem o nariz sangraram. Ele cuspiu um pouco de sangue, mas ainda lá na recuperação. Não reclamou de dor nem teve febre. Tomou novalgina no meio da tarde, dormiu por volta das 16h30 e às 18h30 teve alta médica.
Estresse mesmo só rolou na hora de tirar o micropore do braço, no lugar onde eles aplicaram o soro. Ele cismou que só a dra.Renata podia tirar. Era um pedaço grande e a médica foi puxando de uma vez, coitada, acho que realmente esqueceu que dói um tantinho…Gutão chorou de ficar vermelho. E depois soltou essa: “Não gostei desse tratamento”!!!! Filhote deixou o quarto correndo, falando que queria voltar pra casa, super bem. Nem parece que tomou anestesia geral doze horas atrás. Chegou em casa e mandou ver três iogurtes e mais uma caixinha de suco gelado. A dieta tem que ser líquida e gelada até segunda-feira. Tomou mais dois copos de leite até dormir. Deitou agora às 22h. Perguntei se tinha dor, ele disse que não. Perguntei se tava bem, ele disse “é”. Eu falei que foi muito legal ele ter ajudado hoje, porque, com os ouvidos “limpinhos”, ele não vai ter mais aquela dor chata. Fihote deitou tão cansadinho que até pediu pr’eu apagar a luz do quarto. Tá lá, agora, abraçado na Pig, ah, a companheira Pig. Eu acho que ele vai dormir relativamente bem. Já deu umas choradinhas por causa da petita que caiu, mas não chorou de dor, graças. Que Deus e meu Santo Expedito permitam que, daqui pra frente, seja essa a rotina: um sono tranquilo, tranquilizante!
Foi angustiante a espera pra fazer a cirurgia, mas tenho certeza que Gutão só vai ganhar com os ouvidos “limpinhos”. Tinha um monte de catarro nos dois ouvidos, segundo a médica. Tanto que ela teve que colocar tubinhos de ventilação nos dois lados. É um tubinho microscópico, que vai sair à medida em que o tímpano for crescendo. Serve pra ventilar mesmo e não deixar o catarro acumular no ouvido médio. As adenóides eram de tamanho normal, mas estavam posicionadas exatamente na frente da ligação com o ouvido, ou seja, obstruindo o caminho também. Gutão teve que ser entubado por causa da anestesia e eu tinha medo que voltasse com dor de garganta, ou reclamando do procedimento (eu senti muito nas vezes em que passei por isso…). Que nada. Nem reclamou, nem comentou, acho que realmente isso não o incomodou.
E foi assim, já passou. E a gente aprendeu, mais uma vez, que, com tranquilidade, transmitindo confiança e segurando muuuuuuuuito a nossa onda, nosso filho vai longe. E que a nossa experiência passada é um sinalizador, um orientador, mas que a vidinha dele acontece hoje, as experiências dele se dão agora, e que ele tem o aparato dele pra lidar com as novidades e as adversidades que encontra pelo caminho. E, olha, até aqui, tem lidado mui melhor que eu — ao menos no aspecto médico!! ![]()
Te amamos, Gutão!!!









