Olha pro céu, meu amor
Véspera de São João, dia de arraial na escola do Gutão. A apresentação da turminha dele começou pouco depois do meio-dia. Gutão foi vestido a caráter: chapéu de palha, camisa xadrez, calça de retalhos e bigodão, claro! Ah, faltou contar da gravata, um arraso. Filhote entrou na escola meio tímido, sem reconhecer direito aquele mulherio usando tranças e avental com motivos juninos. Mas foi com a tia que o convidou a se juntar com as crianças da “classe”, a essa altura escondidas dos olhares dos pais babões no corredor atrás do local reservado pra festança. Havia uma fogueira no centro e dois círculos marcados no chão. Gutão me contou ontem: “A tia Velonica disse que tem ficar no X”. Estavam lá, os “Xs”, indicando a posição de cada cotoquinho na hora da dança.
Sentei no chão, enquanto o Rô ficou em pé, máquina a postos. O cordão de isolamento eram bandeirinhas coloridas que caiam no chão toda vez que um pequenino via o pai ou a mãe e saia correndo pra ficar com eles. Tão bonitinhos, os pequenos caipiras. E veio a hora esperada. Turminha entrou de mãos dadas e foi tomando posição no círculo, aleatoriamente. A Clarinha e a Kailani só choraram. O Bruno, um gordinho fofo, menorzinho da turma, também abriu o bocão. Gutão nem chorou nem sorriu. Ficou no X dele, boquiaberto, literalmente, diante das tias que puxavam a coreografia. Dessa vez, acho que estava com sono porque o máximo que fez foi dar uns pulinhos tímidos. Toda vez que olhava pra “multidão” e nos via, dava um sorriso gostoso. Lindo, meu filhote. Eu cantei, gritei, e dei muita risada diante do atordoamento e da satisfação daqueles pequeninos. As meninas, já percebi, em geral, são mais soltas. A noiva da “quadrilha” do Gutão era uma graça. Uma moreninha de vestido branco e véu que saracoteou um bocado na roda.
Bom, depois de duas músicas, a turma saiu direto pra pescaria e pra comilança. Tinha um monte de comida gostosa, mas eu comi quase nada (não deu tempo: ou eu me divertia com filhote ou comia, né?). Mas pipoca, eu comi. E Gutão também! Passou boa parte do tempo “colhendo” as pipocas que caíam no chão. E haja atenção pra evitar que ele as colocasse, todas, de volta na boca! Filhote ganhou várias prendas na pescaria: um jogo de cartas, um pente, um gira-pião e um daqueles acquaplays, sabe? Tava um dia lindo, de céu azul e sol, e ele não aguentou ficar muito tempo com o chapéu. Deu pra mim, disse que eu ia ficar “uma princesa”. Hum-hum.
A escola tava toda enfeitada no tema da festa: “São João da Bicharada”, muito legal. As crianças se divertiram um bocado e nós, os pais, idem. Acho bacana esses momentos de “integração”. Embora a gente não tenha muito contato, por falta de oportunidade, com outros pais, um ou outro sempre vem trocar uma idéia e tal e coisa. Legal também foi conversar com a professora dele, a querida tia Karla. Ela nos contou que ele anda mais “calmo”, menos sentido na hora de dividir os brinquedos, totalmente participativo nas atividades de cantar, dançar e pintar. E disse a Karla que ele fala cada uma que a deixa de queixo caído, igualzinho acontece aqui em casa. Quando a turminha vai lanchar, por exemplo, todos juntos, de mãozinhas dadas, Gutão, às vezes, escapa. E ela diz pra ele: “Gutão, é por aqui”. Ao que ele devolve, nas palavras dela: “Eu quelo ir por lá”!!! (É muita independência, meu pai eterno!!!)
Depois do “Sanjão”, tomamos um brunch na padaria, vimos um pedacinho do jogo que levou a Alemanha adiante na Copa e viemos pra casa. Gutão chegou capotado. Dormiu umas três horas seguidas. Despertou, me chamou, peguei no colo e trouxe pra ver TV com a gente. E não é que filhote dormiu de novo no meu colo? Ah, coisa bem boa. Fazia tempo que ele não se aquietava assim, deitadinho no meu “coração”. Ficou assim uns 20 minutos, tempo suficiente pra eu constatar o quanto ele já cresceu e o quanto o meu amor foi junto. É um amor do tamanho do mundo meeesmo.
Eu amo meu Lolô, meu Tantão, meu Gatinho. Meu menino que gosta de palavras. De falar e de cantar. Pra quem eu canto, e de quem recebo aplauso nos olhos depois da cantoria. E a gente cantou junto, hoje pela manhã: “Olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindooooooo”. Viva São João! Pra quem tem fogueira na rua, muito milho e muita alegria. Pra quem fogueira é saudade, que essa lembrança aqueça o coração. Sempre. Que ter raízes é garantia de ter história pra contar!!!
PS: Há pouco, Gutão pegou sua cadeirinha de madeira, mandou o Rô sentar e disse que ia “examinar” o nariz dele “igual a dra. Renata” (a otorrino dele). Tá aqui, com barco na mão, fazendo o papel de estetoscópio ou coisa parecida, “examinando” o Rô detalhadamente. Já viu o nariz, os ouvidos, o “umbigo” (hahahahaaa) e o coração. Tá dizendo assim pro Rô: “Fica quietinho aqui”, “Não estraga, ainda falta mais um pouquinho”. E deu o barco-estetoscópio de presente pro Rô agora. E disse: “Não rasga o presente”. E tá ali, pegando todos os brinquedos e dando a mesma “ordem”: “Não é pra rasgar, papai”, “É um brinquedinho pra você brincar”. Na hora do jantar, soltou uma demais. Olhou a foto do calendário (uma igreja de Ouro Preto) e disse que era a casa da Bá. Eu disse que não era, não. Que era uma igreja, lugar de rezar, a casa de Deus e dos anjinhos. E ele devolveu: “Os anjinhos de boa-noite protegem o sono do Gutão”. Tá lindo demais, esse menino!









