Esses últimos dias gelaram a alma. Não me lembro de ter vivido um frio tão intenso desde que me mudei pra Sampa oito anos atrás. Os termômetros marcaram oito graus (ou menos!) à noite. Nossa casa, “fresca” por natureza, virou uma geladeira. E Gutão dormiu três noites seguidas entre nós, literalmente. Não tive coragem de deixar meu amadinho dormindo sozinho em seu quarto gelado (o aquecedor, com a porta aberta, é paliativo…). Como sei que ele se mexe pra caramba e não há truque de prender cobertor que dê jeito, preferi dormir torta e esmagada outra vez a senti-lo de orelhinhas geladas no meio da noite. O Rô concordou e nós fizemos nosso “ninho” quentinho com o cobertor de “vaca” (um peludão que o Rô me deu de aniver no ano passado) e a forcinha do novo aquecedor a óleo. Sim, compramos esse depois da roubada de comprar um elétrico pela internet, ou seja, sem testar, e ver o troço parecer um holofote de tanta luz ao ser ligado. Micão!
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Gutão fala. Muito. E brinca. Muito. E cria histórias com contextos bem reais. É a nave que vai pra “Marte”, é a moto que vai ultrapassar o sinal vermelho, é o bombeiro que vai salvar alguém. Não é dado a fantasiar por fantasiar, no sentido de criar histórias sem pé nem cabeça. As histórias dele têm “roteiro” bem construído, sabe? É curioso ver como a cabecinha dele funciona e é curioso também perceber que não há duas crianças (pra não dizer, duas pessoas) iguais no mundo. Tenho filhos de amigas que são o exato oposto do meu: o que curtem é criar histórias de cavaleiros, de castelos, de um mundo “paralelo”. Gutão, não. Gutão é real. Reproduz o mundo real em suas brincadeiras. E brinca muuuuuuuito. E gosta de brincar falando. Conta o que vai fazer, quem vai encontrar, reproduz sons, troca de voz pra dar vez a seus bonequinhos, enche a casa com seus sons. Eu fico lá na cama, em meus dez minutinhos diários a mais antes de levantar pela manhã, e só ouço Gutão matraqueando. É meu momentinho de paz diário. Dou risada sozinha e já acordo um tantinho mais feliz.
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E segue a chuva em São Paulo. E a TV mostra que um pedaço da cabeceira da pista de Congonhas está prestes a desmoronar. E parece que a água que deveria ser devidamente drenada da pista acaba drenando é o barranco e o muro de contenção que separa o aeroporto da avenida Washington Luís. Alguém ainda tem dúvida de que esse aeroporto TEM que ser interditado?
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Gutão tá de férias. Passou duas semanas indo pro “curso de férias” da escola durante as manhãs. Agora, nas duas últimas semanas do mês, achamos por bem deixá-lo em casa. Foi legal que minha mãe ficou aqui alguns dias (três semanas com volta pra Recife na terça via Cumbica, graças a Deus!) e pode curtir um bocado o meninão. Aliás, Gutão deu uma canseira boa na vovó Ju! Tinha dias que eu chegava em casa à noite e estavam os dois “treinando” futebol na sala.
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A tragédia estava anunciada: só não se sabia a data, a hora e quem seriam as vítimas. Mas era certo que uma desgraça ia acontecer naquela pista horrorosa de Congonhas. Se era certo pra mim, que sou leiga em aviação, será que não era um risco, digamos, “pressentido” pelas autoridades? Que jeito é esse de governar? Que falta de responsabilidade é essa? Por que é mesmo que priorizaram o conforto, o saguão bonito, o estacionamento novo, em detrimento da segurança? Quem foi que aprovou esse absurdo? E cadê o presidente?????????? Cadê as autoridades? O que vão dizer agora, hein? Cachorro na pista? Erro do piloto? Ouvi essa baboseira no rádio hoje pela manhã, são as possíveis causas do acidente na versão do governo…Pelamordedeus!!!! Quando é que os brasileiros vão se indignar de verdade?????????? Parece que estão todos anestesiados, socorro.
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Foi quarta à noite o nosso “grande encontro”: eu, Mic e Rês — a Quintela e a Azevedo. A Rê, de Sampa, mãe do Theo, foi a primeira a chegar. Tá tão bonita, minha amiga, de cabelo novo e corpitcho esculpido no Pilates! Conversamos um tantinho e logo chegaram as convidadas ilustres. A Mic, falante e alegre, como sempre. Trouxe um livro de presente pro Gutão (que capotou às 8h da noite e, infelizmente, não participou da noitada). A Rê, tão querida, me deu um abraço gostoso e entrou em casa trazendo sorrisos e uma caixa de chocolate. O Junior, uma simpatia de mineiro, veio junto e deu pra ver que eles realmente são grandes companheiros, carinhosos um com o outro, com muita história pra contar. Eu os recebi com uma emoção de criança, sabe assim? De tão emocionada, fiquei ainda mais, digamos, desastrada do que já sou normalmente. Coloquei prato e talher a menos na mesa, deixei o Junior sem copo na hora do brinde e não parei de espirrar, hahahahahaa. Esfriou pra caramba e eu tive um ataque de rinite como há anos não me lembrava. Foram uns 200 espirros no dia, sem brincadeira. O resultado de tanto espirro é que tive uma crise de sinusite aguda ontem (sexta) e fui parar no hospital com uma dor horrível…Hoje, sábado, estou me recuperando. Parei de espirrar, mas sobrou uma dor de cabeça e uma pressão no rosto daquelas, ui.
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O Rô não conseguiu embarcar pro Panamá, infelizmente. Por causa da vacina atrasada, perdeu o vôo, entrou em lista de espera e a reserva dele acabou “caindo”. Um saco. Ele enfrentou duas madrugadas na beira do check-in, torcendo por uma vaga, mas não rolou. Ficou frustrado, triste mesmo. E nós também. Quando viu o pai em casa mais uma vez, depois de uma despedida muito calorosa na hora de dormir, Gutão não entendeu nada e perguntou: “Quando é que o papai vai conseguir embarcar, mãe?”. Tadinhos. Bom, não rolou as férias dos sonhos, mas hoje cedinho o Rô embarcou pra Floripa. Diz que vai ter ondas maiores e melhores que no Panamá. Viva! Foi lá curtir o tio Bru e um friozinho bom. Vai ver era pra ser assim. Sei lá, eu tento respeitar esses sinais que a vida nos dá e tou entendendo que não era mesmo pro Rô fazer essa viagem pra fora agora. Sábado ele volta, certamente mais descansado e mais feliz (nada como boas ondas pra alegrar um coração surfista!).
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“O que é que tem dentro do dente?”
“Por que a água do mar é salgada?”
Duas perguntinhas báaaaasicas que Gutão fez ao Rô hoje. E que o levaram a procurar resposta na internet pra explicar direitinho pro menino. Tempos modernos, pais modernos! Eu fico pasma com essa curiosidade das crianças e essa capacidade de querer saber de coisas tão, mas tão específicas. Acompanho Gutão porque é ele quem está aqui do meu lado, mas imagino que quase todos os serzinhos dessa faixa etária façam perguntas igualmente engraçadas e desconcertantes para os adultos que estão por perto. Fico pensando que, à medida em que a gente cresce, vai inibindo essa “competência” de perguntar, que vem no nosso chip e que vai atrofiando por falta de uso, estímulo, ou seja lá o que for. E hoje é tão essencial saber fazer as perguntas certas. Tem até consultores que defendem que, nos primeiros 100 dias em uma nova função, em um novo emprego, você deve perguntar tudo aquilo que passar pela cabeça. Bacana. Mas por que é mesmo que tem que ter prazo pra parar de perguntar? Acho que é por quê perguntar incomoda. Quem recebe a questão tem que pensar na resposta. Se não a tem, tem que fazer como o Rô e correr atrás, pesquisar, se informar. E não é todo mundo que tá disposto a sair da inércia e ampliar seu conhecimento — e o do outro, né?
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Eu sempre quis ser jornalista. Na verdade, quando era bem pequena pensava em ser bailarina ou professora. Quando fiquei maiorzinha, no entanto, sempre soube que gostava mesmo era de escrever. Sempre tive diários. Sempre escrevi muito. Eu adoro palavras. Adoro palavras formando frases. Adoro conseguir expressar, por escrito, alguma coisa. Adoro traduzir para alguém o que só eu vi, senti, percebi de uma determinada situação. Acho mesmo fascinante esse tal de “texto”.
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Gutão melhorou da otite. Deve ser a atuação do antibiótico, aquele de gosto horrível que ofereço com uma colherada de leite-moça. Filhote passou o final de semana cheio de alegria, correndo, brincando, me enchendo de abraços. Anda meio disposto a uma troca de socos e tabefes, coisa das “brincadeiras” que faz com o pai, e sempre que passa do limite, vai pro castigo. Senta no pufe com olhos cheios de lágrimas e já pedindo desculpas. Mas fica lá seus três minutos e só sai depois de pedir as devidas desculpas.
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