Frevança
Gutão não pode perder essa: frevar os 100 anos do Frevo! Estamos indo pra Recife, eu e ele, na próxima quarta. O Rô segue na sexta. Lá ficamos até a outra sexta, curtindo a família, a praia, e a “frevança”. Tou mesmo precisando de férias. O início desse ano foi mais intenso do que todos os últimos (afora o do nascimento do Gutão, né?) e resultou em grandes novidades profissionais. Logo, logo eu anuncio por aqui.
Filhote tá animadíssimo com o carnaval. Não sabe direito o que é, mas diz que vai dançar e cantar lá em Recife. Ah, se depender de mim, vai mesmo. Preciso é combinar com a Rapha, mãe do Igor, pra gente levar os pequenos pro “Eu Acho é Pouquinho”, versão mirim da troça “Eu Acho é Pouco”, que tantas vezes me fez subir e descer ladeira em Olinda. Que delícia!
Gutão é que tá uma delícia! Agora, deu de fazer showzinho pra gente, tocando violão, se remexendo e ensaiando umas palavrinhas em inglês inventado! É nosso Jack Johnson particular, rá-rá-rá! O melhor do show, na verdade, é o microfone: um cachorrinho, sem cabeça, daqueles de cabo comprido que as crianças adoram empurrar, sabe? Foi filhote mesmo quem inventou essa utilidade pro bicho e nós só aplaudimos porque é criativo e engraçado demais!
Fora toda a maravilha, alguns perrengues: coco só na fralda e muitos ataques de “quero isso, não quero aquilo”. Como diria a dinda Dani, é a tal “neurose de controle”, também chamada de “adolescência dos dois anos”
Sério, tem horas em que perco totalmente a estribeira e até tapinha na mão vem rolando quando toda a verborragia, minha e dele, aflora. E o menino implica do nada, com coisas que eu não tenho a menor condição de adivinhar — portanto, não tenho como me preparar pro barraco. E não escolhe lugar, veja bem. Domingo, fomos comer uma picanha em um restaurante simpático da Vila. Gutão sempre nos acompanha em restaurantes e raras vezes foi sinônimo de inconveniência. Ao contrário, é uma criança desde cedo curiosa, sociável e que se entretém com seus carrinhos enquanto papai e mamãe tentam conversar um pouquinho. Bom, domingo, não foi assim. Na mesa até que ele foi um “lord”. Brincou com os carrinhos, beliscou a entrada, comeu carninha e um pouco de arroz e mandou ver dois copões de suco de uva. O negócio engrossou na hora do xixi. Gutão não se recusou a ir ao banheiro. Fez tudo como manda o figurino, até limpou o “pinto” sozinho. Aí, na minha vez, na hora em que fui lavar as mãos, pronto, o figura encanou que ele que tinha que abrir a torneira, começou a berrar, se debatendo no chão, vermelho que nem um tomate. Caiu o tênis, fui tentar colocar e ele, mais nervoso ainda, começou a gritar e a dizer que era pra eu fechar a torneira (a tal neurose de controle se manifestando!) e que ele ia abrir e que eu só podia lavar as mãos depois disso. Faça-me o favor. Peguei os braços dele, olhei nos olhos, trinquei os dentes e “pedi” pra colocar o tênis, o que fiz com ele aos berros. O estresse foi tanto que o Rô, percebendo nossa demora, veio me socorrer. Ainda bem que ele já tinha pago a conta e que o pequeno rebelde saiu no meu colo vermelho, todo molhado de tanto chorar, mas igualmente envergonhado do vexame. Não é mole, não!
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(E eu não posso deixar de registrar: que horror, que absurdo, que barbaridade o que aconteceu com o menino carioca, mais uma vítima inocente da violência. Até quando? Até quando os brasileiros — sim, você, eu — vamos reprimir nossa indignação? Até quando esse país vai viver à mercê desse horror? Ai, gente, é rezar muito, pedir muita proteção…Já chorei tanto pensando nessa mãe, nesse pai, nessa irmã, nas pessoas que presenciaram a cena, impotentes. Na dor desse menino, na vidinha que se acabou, assim, tão estupidamente…Choro por meu filho também. Por esse mundo estranho que ele vai herdar. Choro e peço proteção ao Anjo da Guarda. É muito pouco o que eu posso fazer, além de torcer muito para que cenas grotescas como essas que, volta e meia, temos o desprazer de conhecer virem exceção, e não regra).